Perfect Strangers

parte 2

 


09:00 da manhã 

O calor intenso, que fazia seu corpo transpirar em abundância, também era responsável por secar todo o suor de sua pele quase que no mesmo instante em que ele deixava os poros. O fogo aproximava-se velozmente, consumindo tudo o que estava em seu caminho. O homem percebeu que não havia mais escapatória quando viu, atrás de si, uma nova barreira de labaredas erguer-se como uma muralha entre ele e a rua. Uma campainha soou alta e sincopada em meio ao rugido das chamas. 

Wayne despertou com o coração aos pulos. Levou alguns instantes até entender que o fogo fora um pesadelo, mas a campainha era real. O telefone tocava insistentemente. 

- Alô... – resmungou, mal-humorado. 

- Garcia? Precisamos de você aqui. A esposa de Leibowitz entrou em trabalho de parto e ele teve de ir para o hospital com ela. Alguém precisa cobrir o turno. 

Wayne pensou em contestar. Por que esse alguém precisava necessariamente ser ele? Por que diabos ele era SEMPRE o alguém? Mas parecia não haver muito espaço para contestações no tom imperativo do capitão Wilkinson. 

- Sim, senhor. Em meia hora estarei aí. - respondeu, a contragosto. 

Quando ergueu-se da cama, a cabeça girava. Havia deixado o serviço ao fim de seu turno, por volta de meia-noite e pouco, e fora beber. Estava cansado e algumas doses sempre o ajudavam a relaxar. 

Bebera mais que a conta. Muito mais, a julgar pelo estado em que se encontrava sua cabeça. Mas quem se importava? A quem interessava o caos que era sua vida? Nunca fora e nem nunca pretendera ser o senhor perfeito que desejavam sua mãe e sua avó. Apesar do nome que lhe quiseram dar, John Wayne Garcia, dos heróicos personagens do velho oeste ele só herdara o gosto por bourbon. 

O caos contra o qual ele lutava em seu trabalho como bombeiro permeava cada mínima faceta de sua vida. Quando não por acidente, por escolha própria. Wayne vivia sozinho, bebia demais, envolvia-se com prostitutas. Não se julgava capaz de um relacionamento sério e, sempre repetia para si mesmo, não precisava de um. 

Seu único objetivo era continuar trabalhando e vivendo como pudesse, até ter economizado o suficiente para comprar um barco. Estava muito perto de alcançar esta meta. Apenas cinco mil dólares o impediam de concretizá-la. 

Aí, então, seu mundo seria perfeito. 



11:00 da manhã 

- Sementes de girassol? Um minuto que vou verificar no estoque se ainda restam algumas. 

J.J. deixou a senhora Hill esperando no balcão, enquanto se dirigia aos fundos da loja. Examinou as prateleiras do estoque com atenção, embora soubesse de antemão que nada encontraria. 

Ele se lembrava muito bem da semana anterior, quando o homem de Arroyo Seco estivera no mercado e arrebatara todos os pacotes disponíveis de sementes de girassol e mais uma quantidade de mantimentos tão grande como se estivesse esperando a Terceira Guerra Mundial. Muito estranho! 

Aliás, tudo era esquisito no que dizia respeito àquele casal de Arroyo Seco. Não era à toa que o pessoal da cidade os chamava de senhor e senhora Estranho, desde que haviam aparecido ali pela primeira vez, cerca de dez anos antes. 

Haviam surgido do nada, com um ar triste e assustado, em meio a uma tarde de quinta feira, e comprado, à vista e em dinheiro, um rancho num lugar distante. E que rancho! Aquela propriedade, nas montanhas em Arroyo Seco, tinha reputação de mal assombrada. J.J. obviamente não acreditava nisso. Mas o certo era que ele não sabia de ninguém que tivesse morado por muito tempo naquele lugar esquecido por Deus. Ninguém, exceto aquele casal. O que fazia crescer ainda mais, entre os moradores da cidade, sua fama de estranhos. 

O homem, alto e bem apessoado, vinha regularmente à cidade comprar mantimentos. Era reservado, sem ser antipático. A mulher, miúda e ruiva, dificilmente era vista por ali. Suas aparições eram breves idas ao banco, sempre com um jeito desconfiado. 

Ambos tinham sempre um ar assustado, excessivamente cauteloso, como o de fugitivos. Talvez fossem exatamente isso, fugitivos. Mas quem não o era naqueles dias loucos? Muita gente costumava aparecer por ali, procurando, na calma das montanhas, um refúgio contra a violência das grandes cidades. 

J.J. não iria se espantar se um dia viesse a descobrir que o senhor e a senhora Estranho estavam em Arroyo Seco se escondendo do mundo lá fora, do caos de que ele era feito. Ou se afastando de suas falsidades e intrigas, em busca de alguma verdade interior. O isolamento das montanhas seria perfeito para isso. 

Uma sensação de intenso desconforto na boca do estômago arrancou J.J. de seus devaneios. Ah, droga de costeletas de porco... 

- As sementes de girassol realmente estão em falta, Sra. Hill. - ele disse, sorrindo. - Mas leve esses pistaches... por conta da casa. Afinal, nada é totalmente imperfeito, não é? 



01:00 da tarde 

Crianças podem ser imensamente perversas quando o querem. 

O que prometia ser uma animada manhã recheada de jogos e brincadeiras revelara-se mais um episódio de preconceito e exclusão para a pequena Sari. Uma verdadeira provação fora o que a menina enfrentara naquelas terríveis horas na escola. 

Ninguém a chamara para brincar ou, quando a chamaram, era, simplesmente, porque não restava mais ninguém para compor os times a não ser a menina. Nas poucas brincadeiras de que participou, o fizera porque sua presença fora imposta pelos professores. 

Sari não queria que fosse daquela forma. Ela queria ser aceita pelos coleguinhas pelo que era, uma criança inteligente, divertida e companheira. Mas não era assim. A cor de sua pele, de seus cabelos, sua crença religiosa, seu nome diferente, tudo servia de barreira para afastar as outras crianças. 

Se, aos menos, seus pais fossem ricos ou importantes... Mas seu pai fora afastado do cargo que ocupava, na Nasa, por não concordar com a política de divulgação, ou ocultação como ele sempre dizia, de informações praticada naquela agência. Mesmo sendo o brilhante engenheiro aeroespacial que, reconhecidamente, ele era. 

Por causa disso, a mãe tivera de abandonar seu trabalho como professora de filosofia em uma conceituada universidade na Flórida e toda a família fora obrigada a se mudar. Foram de cidade em cidade até encontrar a segurança necessária para uma vida tranqüila na cidadezinha onde moravam agora. O pai trabalhava numa pequena indústria local e a mãe gerenciava uma lojinha de produtos esotéricos. 

Sentada, na varanda de casa, Sari folheava distraída uma revista feminina. Seus olhos vagavam pelas páginas onde belas modelos louras e com olhos azuis exibiam as peles muito alvas em fotos de moda. Ela deslizou o dedinho moreno por sobre a brancura da pele de uma das fotos, desejando intimamente que, com aquele gesto, pudesse transmutar-se naquele padrão aceito. Uma lágrima singela rolou por seu rosto por saber que isso não possível. 

- Sari! 

Ela ergueu os olhos do papel, secando a face com as costas da mão. Era William, o mais próximo de um amigo que ela havia conseguido arranjar na escola. Ao menos, ele não a ignorava, nem desprezava por ser diferente. Ela esboçou um sorriso triste. 

- Vamos brincar no riacho. Quer vir com a gente? - ele convidou sorrindo. 

Claro que queria! Ser convidada para brincar, para fazer parte da turma, era TUDO o que Sari mais desejava. Além do que, fazia uma tarde linda, surpreendentemente quente para dezembro, não havia nuvens no céu... Um dia perfeito para nadar no riacho. 

Melhor. Era início do recesso. Não havia dever de casa para fazer, nem a necessidade de estudar naquele dia, nem nos próximos. Sim, ela queria. E como queria! 

- Vou só falar com minha mãe e trocar de roupa. Encontro com vocês lá! 

Um lindo sorriso iluminava seu semblante quando Sari levantou-se de um salto e correu para dentro, acenando para o garoto. 

A esperança de ser feliz reacendera no coração da criança. 



03:00 da tarde 

O dia, afinal, não estava sendo assim tão ruim quanto parecera às nove da manhã, pensou Wayne, ao bocejar, estendido no sofá da sala de TV do quartel central dos bombeiros. Nenhum chamado a manhã inteira, costeletas de porco no almoço e torta de abacaxi como sobremesa. Nada mal para um dia que começara com a campainha desagradável do telefone e a voz de Wilkinson berrando ordens do outro lado da linha. 

Cochilara a maior parte do tempo. Assistira TV ou jogara conversa fora com colegas que não via há muito tempo. Nada a fazer, senão isso. Melhor que ficar em casa! E ele ainda receberia salário por aquilo. 

Faltava apenas Wayne conseguir alguém que cobrisse seu turno da noite e poderia dizer que havia tido ao menos um dia na vida bem perto de ser perfeito. 



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