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09:00 da manhã
O calor intenso, que fazia seu corpo transpirar em abundância, também era
responsável por secar todo o suor de sua pele quase que no mesmo instante em
que ele deixava os poros. O fogo aproximava-se velozmente, consumindo tudo o que
estava em seu caminho. O homem percebeu que não havia mais escapatória quando
viu, atrás de si, uma nova barreira de labaredas erguer-se como uma muralha
entre ele e a rua. Uma campainha soou alta e sincopada em meio ao rugido das
chamas.
Wayne despertou com o coração aos pulos. Levou alguns instantes até entender
que o fogo fora um pesadelo, mas a campainha era real. O telefone tocava
insistentemente.
- Alô... – resmungou, mal-humorado.
- Garcia? Precisamos de você aqui. A esposa de Leibowitz entrou em trabalho de
parto e ele teve de ir para o hospital com ela. Alguém precisa cobrir o turno.
Wayne pensou em contestar. Por que esse alguém precisava necessariamente ser
ele? Por que diabos ele era SEMPRE o alguém? Mas parecia não haver muito espaço
para contestações no tom imperativo do capitão Wilkinson.
- Sim, senhor. Em meia hora estarei aí. - respondeu, a contragosto.
Quando ergueu-se da cama, a cabeça girava. Havia deixado o serviço ao fim de
seu turno, por volta de meia-noite e pouco, e fora beber. Estava cansado e
algumas doses sempre o ajudavam a relaxar.
Bebera mais que a conta. Muito mais, a julgar pelo estado em que se encontrava
sua cabeça. Mas quem se importava? A quem interessava o caos que era sua vida?
Nunca fora e nem nunca pretendera ser o senhor perfeito que desejavam sua mãe e
sua avó. Apesar do nome que lhe quiseram dar, John Wayne Garcia, dos heróicos
personagens do velho oeste ele só herdara o gosto por bourbon.
O caos contra o qual ele lutava em seu trabalho como bombeiro permeava cada mínima
faceta de sua vida. Quando não por acidente, por escolha própria. Wayne vivia
sozinho, bebia demais, envolvia-se com prostitutas. Não se julgava capaz de um
relacionamento sério e, sempre repetia para si mesmo, não precisava de um.
Seu único objetivo era continuar trabalhando e vivendo como pudesse, até ter
economizado o suficiente para comprar um barco. Estava muito perto de alcançar
esta meta. Apenas cinco mil dólares o impediam de concretizá-la.
Aí, então, seu mundo seria perfeito.
11:00 da manhã
- Sementes de girassol? Um minuto que vou verificar no estoque se ainda restam
algumas.
J.J. deixou a senhora Hill esperando no balcão, enquanto se dirigia aos fundos
da loja. Examinou as prateleiras do estoque com atenção, embora soubesse de
antemão que nada encontraria.
Ele se lembrava muito bem da semana anterior, quando o homem de Arroyo Seco
estivera no mercado e arrebatara todos os pacotes disponíveis de sementes de
girassol e mais uma quantidade de mantimentos tão grande como se estivesse
esperando a Terceira Guerra Mundial. Muito estranho!
Aliás, tudo era esquisito no que dizia respeito àquele casal de Arroyo Seco. Não
era à toa que o pessoal da cidade os chamava de senhor e senhora Estranho,
desde que haviam aparecido ali pela primeira vez, cerca de dez anos antes.
Haviam surgido do nada, com um ar triste e assustado, em meio a uma tarde de
quinta feira, e comprado, à vista e em dinheiro, um rancho num lugar distante.
E que rancho! Aquela propriedade, nas montanhas em Arroyo Seco, tinha reputação
de mal assombrada. J.J. obviamente não acreditava nisso. Mas o certo era que
ele não sabia de ninguém que tivesse morado por muito tempo naquele lugar
esquecido por Deus. Ninguém, exceto aquele casal. O que fazia crescer ainda
mais, entre os moradores da cidade, sua fama de estranhos.
O homem, alto e bem apessoado, vinha regularmente à cidade comprar mantimentos.
Era reservado, sem ser antipático. A mulher, miúda e ruiva, dificilmente era
vista por ali. Suas aparições eram breves idas ao banco, sempre com um jeito
desconfiado.
Ambos tinham sempre um ar assustado, excessivamente cauteloso, como o de
fugitivos. Talvez fossem exatamente isso, fugitivos. Mas quem não o era
naqueles dias loucos? Muita gente costumava aparecer por ali, procurando, na
calma das montanhas, um refúgio contra a violência das grandes cidades.
J.J. não iria se espantar se um dia viesse a descobrir que o senhor e a senhora
Estranho estavam em Arroyo Seco se escondendo do mundo lá fora, do caos de que
ele era feito. Ou se afastando de suas falsidades e intrigas, em busca de alguma
verdade interior. O isolamento das montanhas seria perfeito para isso.
Uma sensação de intenso desconforto na boca do estômago arrancou J.J. de seus
devaneios. Ah, droga de costeletas de porco...
- As sementes de girassol realmente estão em falta, Sra. Hill. - ele disse,
sorrindo. - Mas leve esses pistaches... por conta da casa. Afinal, nada é
totalmente imperfeito, não é?
01:00 da tarde
Crianças podem ser imensamente perversas quando o querem.
O que prometia ser uma animada manhã recheada de jogos e brincadeiras
revelara-se mais um episódio de preconceito e exclusão para a pequena Sari.
Uma verdadeira provação fora o que a menina enfrentara naquelas terríveis
horas na escola.
Ninguém a chamara para brincar ou, quando a chamaram, era, simplesmente, porque
não restava mais ninguém para compor os times a não ser a menina. Nas poucas
brincadeiras de que participou, o fizera porque sua presença fora imposta pelos
professores.
Sari não queria que fosse daquela forma. Ela queria ser aceita pelos
coleguinhas pelo que era, uma criança inteligente, divertida e companheira. Mas
não era assim. A cor de sua pele, de seus cabelos, sua crença religiosa, seu
nome diferente, tudo servia de barreira para afastar as outras crianças.
Se, aos menos, seus pais fossem ricos ou importantes... Mas seu pai fora
afastado do cargo que ocupava, na Nasa, por não concordar com a política de
divulgação, ou ocultação como ele sempre dizia, de informações praticada
naquela agência. Mesmo sendo o brilhante engenheiro aeroespacial que,
reconhecidamente, ele era.
Por causa disso, a mãe tivera de abandonar seu trabalho como professora de
filosofia em uma conceituada universidade na Flórida e toda a família fora
obrigada a se mudar. Foram de cidade em cidade até encontrar a segurança
necessária para uma vida tranqüila na cidadezinha onde moravam agora. O pai
trabalhava numa pequena indústria local e a mãe gerenciava uma lojinha de
produtos esotéricos.
Sentada, na varanda de casa, Sari folheava distraída uma revista feminina. Seus
olhos vagavam pelas páginas onde belas modelos louras e com olhos azuis exibiam
as peles muito alvas em fotos de moda. Ela deslizou o dedinho moreno por sobre a
brancura da pele de uma das fotos, desejando intimamente que, com aquele gesto,
pudesse transmutar-se naquele padrão aceito. Uma lágrima singela rolou por seu
rosto por saber que isso não possível.
- Sari!
Ela ergueu os olhos do papel, secando a face com as costas da mão. Era William,
o mais próximo de um amigo que ela havia conseguido arranjar na escola. Ao
menos, ele não a ignorava, nem desprezava por ser diferente. Ela esboçou um
sorriso triste.
- Vamos brincar no riacho. Quer vir com a gente? - ele convidou sorrindo.
Claro que queria! Ser convidada para brincar, para fazer parte da turma, era
TUDO o que Sari mais desejava. Além do que, fazia uma tarde linda,
surpreendentemente quente para dezembro, não havia nuvens no céu... Um dia
perfeito para nadar no riacho.
Melhor. Era início do recesso. Não havia dever de casa para fazer, nem a
necessidade de estudar naquele dia, nem nos próximos. Sim, ela queria. E como
queria!
- Vou só falar com minha mãe e trocar de roupa. Encontro com vocês lá!
Um lindo sorriso iluminava seu semblante quando Sari levantou-se de um salto e
correu para dentro, acenando para o garoto.
A esperança de ser feliz reacendera no coração da criança.
03:00 da tarde
O dia, afinal, não estava sendo assim tão ruim quanto parecera às nove da
manhã, pensou Wayne, ao bocejar, estendido no sofá da sala de TV do quartel
central dos bombeiros. Nenhum chamado a manhã inteira, costeletas de porco no
almoço e torta de abacaxi como sobremesa. Nada mal para um dia que começara
com a campainha desagradável do telefone e a voz de Wilkinson berrando ordens
do outro lado da linha.
Cochilara a maior parte do tempo. Assistira TV ou jogara conversa fora com
colegas que não via há muito tempo. Nada a fazer, senão isso. Melhor que
ficar em casa! E ele ainda receberia salário por aquilo.
Faltava apenas Wayne conseguir alguém que cobrisse seu turno da noite e poderia
dizer que havia tido ao menos um dia na vida bem perto de ser perfeito.
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