Perfect Strangers

parte 3

05:00 da tarde 

Trancada no banheiro, Sari esfregava furiosamente os fundilhos do short branco. Aquela mancha tinha de sair de qualquer jeito. A mãe ficaria ensandecida se descobrisse que ela havia sujado seu short novo. 

Mas e se Sari contasse à mãe a verdade? E se dissesse que aquele sangue que manchara a roupa saíra e continuava saindo de dentro dela? E se contasse à mãe que estava sangrando? 

Não! Sua mãe ficaria ainda mais zangada se imaginasse que Sari havia se ferido. Ou tremendamente preocupada, o que era pior, e certamente a levaria ao médico para tomar injeções. E a menina detestava tomar injeções. Sari preferia sangrar até a morte que tomar uma daquelas injeções enormes e dolorosas que tanto gostava de aplicar o dr. Conrad. 

Talvez fosse melhor mesmo sangrar até morrer. Só assim nunca mais teria de passar por humilhações como as que havia sofrido naquela tarde. 

Tudo parecera tão certo, tão perfeito quando a tarde começara e William a convidara para ir ao riacho... Tão perfeito que até mesmo sua mãe, contrariando o costume, não criara nenhum empecilho para que a menina saísse. 

No riacho, estavam diversas crianças da escola. Alan, Lisa, Bobby, Sally, Angela, Mark, todos, sem exceção, comandados por William, haviam tratado Sari como uma deles. Brincaram, nadaram, falaram bobagens. Tudo perfeito. Até o fatídico momento em que o inferno começara. 

Estavam todos sentados em círculo, jogando um jogo de memória, onde cada participante devia repetir toda a estória contada por seus antecessores e acrescentar alguma coisa ao final. Sari era muito boa em jogos de memória e em inventar estórias e estava se saindo muito bem. Cada acréscimo seu à estória toda arrancava uma rodada de palmas e gargalhadas dos coleguinhas. 

Ela seria a próxima a jogar e estava totalmente concentrada no que Mark inventava por seu turno. Foi nesse instante que sentiu uma pontada no baixo ventre. Não era exatamente uma dor, era mais como se alguém apertasse sua barriga com muita força. Talvez fosse algo que houvesse comido... 

E, então, era sua vez. Sari repetia toda a longa ladainha e se preparava para acrescentar um final engraçado, quando sentiu uma coisa estranha. Algo quente parecia estar escorrendo por entre suas pernas. 

A garota quase não conseguiu terminar de falar, tamanho o desconforto. Não era possível que estivesse fazendo xixi nas calças, como um bebezinho! 

- O último a pular na água é mulher do padre! 

Aquela sensação desagradável continuava a incomodá-la, quando Alan saiu correndo em direção ao riacho. Os outros o seguiram. Sari, no entanto, não queria se levantar. 

- Venha, Sari! A água está uma delícia. - convidou William. 

A menina balançou a cabeça negativamente e esboçou um sorriso sem graça. Ela definitivamente não queria se levantar. Algo, no fundo de seu coração, lhe dizia que era melhor ficar exatamente onde estava. E foi o que ela fez, ignorando os apelos das outras garotas. 

Sari não percebeu quando Alan e Bobby cochicharam um com o outro. Tampouco reparou quando saíram da água e caminharam sorrateiros até estarem ao seu lado. Ela somente os viu quando os dois garotos a ergueram pelos braços da pedra onde estava sentada e a largaram de pé em meio às outras crianças que também haviam saído da água. 

- Ei! Olhem as calças de Sari! Sari fez porcaria nas calças! - gritou Alan, apontando para a grande mancha avermelhada que tingia o short branco da menina. 

Ela, assustada, imediatamente levou as mãos aos fundilhos e elas ficaram sujas de vermelho. 

- Sari fez porcaria nas calças! Sari fez porcaria nas calças! - repetiam com galhofa Alan, Bobby e Mark, às gargalhadas. 

A garota mordia os lábios para conter o choro, mas, ainda assim, as lágrimas logo explodiram de seus olhos. 

Nas imagens turvas pelo pranto, Sari notou que William se aproximava dela com um sorriso carinhoso. Seus lábios se moviam em palavras incompreensíveis para a garota. Tudo o que ela sabia, naquele exato instante, era que precisava sair dali. Não queria que eles a vissem chorando. Não queria que William a visse chorando. 

Saiu em disparada pelo caminho de volta para casa. O pranto agora corria livre por seu rosto, tentando afogar a vergonha que sentia. 

Nunca mais queria ver ou ser vista por aquelas crianças. Precisava convencer o pai que era hora de mudarem de cidade outra vez. Precisava sair dali. 

Sari corria e chorava, sem se importar com o mundo à sua volta. 

Entrou em casa como um raio e trancou-se no banheiro, onde ainda estava, quando sua mãe começou a bater na porta. 

- Sari, minha filha! Você está bem? 

Ela não respondeu, não queria responder. Se o fizesse, a mãe notaria, pelo tom de sua voz, que estava chorando. E Sari não queria que a mãe perguntasse o porquê. 

- Sari? Sari? - a mãe soava preocupada. 

Então, a menina ouviu o ruído da chave sendo girada na fechadura. O pânico a dominou. Pôs-se a esfregar ainda mais vigorosamente a mancha nas calças e respirou fundo, à espera do fim. 



08:45 da noite 

- Vinte e seis! - anunciou a voz da loura bonita no vestido colante. 

Sem despregar os olhos da TV, Wayne mal acreditava no que estava acontecendo. 

De manhã, no caminho para o quartel, ele havia parado para tomar um café. Por alguma razão, enquanto procurava nos bolsos uma moeda para pagar o lanche, seus olhos foram atraídos pelo colorido dos bilhetes da loteria local. Ele não costumava comprar bilhetes de loteria. Wayne não acreditava em sorte. Mas a fascinação por aqueles quadradinhos de cartolina multicor fora tão grande que ele não resistira em adquirir um. 

E agora, diante dele, na TV, apenas uma das bolinhas que subiam e desciam dentro do globo de plástico o separava do prêmio máximo. 

Ele esquecera a raiva e a frustração por não encontrar um colega que o substituísse, esquecia o cansaço do segundo turno consecutivo. Aquelas bolinhas brancas, subindo e descendo ao sabor do jato de ar no interior do globo transparente, eram tudo o que importava no mundo. Ele as observava fascinado, os dedos apertando com força o bilhete de cartolina, como se não quisessem deixar escapar o sonho. 

Então, um jato de ar mais forte isolou uma das bolinhas em um compartimento no topo do globo. A loura do vestido decotado sorriu um sorriso de mil dentes perfeitos, enquanto tomava a bolinha e a examinava com ar compenetrado, numa lentidão irritante. 

Num punhado de segundos que pareceram uma eternidade, pensamentos antagônicos duelaram na mente de Wayne. 

Num momento, aquela bolinha trazia seu número. Ele se imaginava em seu barco, nem grande, nem pequeno, simplesmente confortável, singrando as águas cor de turmalina do Golfo do México, sob o sol tépido. O vento nos cabelos, o gosto salgado do ar marinho em sua boca. 

No instante seguinte, não era mais seu número e ele duvidava da sorte, da vida, do mundo. Duvidava de Deus, que parecia tê-lo esquecido, mal deixara as fraldas. 

- Setenta e quatro! - interrompeu a voz melosa da loura na TV. 

Wayne apertou tão forte o bilhete que amassou a cartolina colorida. Setenta e quatro, seu número! Ele havia ganho! Ganhara a loteria! Um milhão de dólares! Mais do que jamais imaginara ter! Todos os seus desejos realizados e mais alguns que ainda viesse a inventar. 

O sonho de uma vida perfeita, porém, teria que ficar para depois. A sirene estridente do quartel anunciava uma emergência para os bombeiros. 

Wayne mal teve tempo de enfiar o bilhete premiado fundo no bolso e correr para o caminhão. Mas ele não se importava. 

Apenas mais um atendimento e o sonho estava prestes a se realizar. 



09:00 da noite 

A lua já ia alta no céu. A brisa continuava quente, embora um pouco mais fresca que durante o dia. 

Recostado na varanda de sua casa, J.J. retorcia as mãos nos bolsos. Aquela sensação de opressão que o perseguira desde que acordara, permanecia. Forte a ponto de fazer voltar a maldita vontade de fumar. 

J.J. fechou os olhos e pode sentir o gosto acre da nicotina em sua boca, a sensação da fumaça preenchendo os pulmões. Ele sempre gostara de contemplar o brilho rubro da brasa do cigarro, destacando-se contra a escuridão da noite. Ato falho, tateou os bolsos em busca de um maço. 

O que estava fazendo? Malditas costeletas! 

Olhou em volta, à procura de qualquer coisa fora do lugar, algo que pudesse distrair seu pensamento da vontade de fumar. As cadeiras brancas estavam simetricamente dispostas. Os vasos de violetas, apoiados no parapeito em perfeita harmonia. Nenhum grão de poeira no chão feria a arrumação perfeita da varanda. 

No jardim, em frente à casa, a grama verde estava perfeitamente aparada e as roseiras plantadas em canteiros simétricos, podadas e preparadas para o inverno. No azul profundo do céu noturno, a grande esfera cor de prata da lua cheia destacava-se dentre as inúmeras estrelas brilhantes. 

O mundo poderia ser perfeito para J.J. não fosse por aquela sensação desagradável que tinha na boca do estômago e que lhe trazia de volta um crescente desejo por um cigarro. 

- Maldição! - ele murmurou baixinho. 

Enfiando a mão num dos bolsos, ele resgatou um cigarro, o último do último maço que ele fumara antes de abandonar o vício. No passado, ele o guardara ali como testemunho silencioso de sua vitória contra o vício. Agora, aquele pequeno cilindro de papel e tabaco serviria como baluarte de sua derrocada. 

A outra mão, atenta à movimentação da primeira, já trazia aceso o fósforo que consumaria o ato. Quando a chama tremeluzente tocou a extremidade do cigarro, um forte estrondo ecoou no silêncio da noite. No horizonte, uma enorme bola de fogo ergueu-se aos céus. 

J.J., soltando uma longa baforada da fumaça mal cheirosa de seu Morley, compreendeu, naquele instante, que seu mundo nunca mais seria perfeito. 

Não diante de 22 de dezembro de 2012. 


XxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxX 


Wayne afagava distraído o bolso da calça onde estava guardado seu passaporte para um mundo perfeito. O pensamento perdido nas águas quentes e cristalinas em um ponto qualquer do mar do Caribe não lhe permitia reparar na total desordem que se espalhava pelo mundo ao seu redor. 

Por todo lado, havia fogo devorando a cidade. Uma dezena de incêndios e explosões havia ocorrido quase que simultaneamente em diversos pontos da cidade e arredores. As sirenes dos carros de bombeiros enchiam o silêncio com seus gritos ensurdecedores, enquanto os caminhões vermelhos rasgavam a noite à toda velocidade. 

Alheio a tudo, Wayne Garcia sonhava, como nunca se permitira desde os tempos de criança. Sonhava com dias melhores, com sua própria versão de um mundo perfeito. A esperança coloria seus sonhos com cores vívidas e luminosas, tão diferentes da sombria realidade de sua vida. 

- Garcia, vamos! 

O grito do companheiro o trouxe de volta de seus devaneios para a crueza de uma situação de emergência em andamento. 

Parte da casa branca, em Church Falls, ardia. No gramado descuidado, diante dela, um casal observava as chamas, aparentemente atônito, alheio à movimentação dos bombeiros. O homem de cabelos brancos, magro porém forte, era amparado pela mulher morena que o abraçava. Parecia totalmente abatido pela visão do fogo que consumia a casa. A mulher afagava-lhe carinhosamente os cabelos e trazia no olhar um quê de tristeza indefinível e irremediável. 

Era tão evidente a desesperança de ambos que Wayne quase se sentia culpado por sonhar com um futuro melhor e foi invadido pela bizarra idéia de que o mundo havia saído de seus eixos, de que algo, naquele momento todo, estava muito, muito errado. 

Não houve tempo, no entanto, para entregar-se à filosofia. Wayne ouviu o grito apenas uma fração de segundo depois que reparou no menino. Oito ou nove anos, nas mãos uma bicicleta vermelha, ele surgiu tão próximo à casa que o fogo que a devorava emprestava reflexos avermelhados aos seus cabelos louros. 

- Papai! - gritou, quando parte da estrutura em chamas começou a desabar sobre ele. 

O homem de cabelos brancos, subitamente recuperado do torpor que o paralisava, correu em direção ao menino. Wayne, porém, foi mais rápido e chegou ao local bem a tempo de receber sobre si um enorme pedaço da parede em chamas. 

- Onde ele está? - indagou a voz rouca do homem de cabelos brancos já de pé ao lado de Wayne. 

Em meio ao entulho ardente, ele procurou pelo menino. Mas ele havia desaparecido. Era como se houvesse sumido no ar! Ou se nunca estivesse estado ali... 

- Socorro! Oficial caído. - gritou a mulher morena, que agora o amparava. 

Foi então que Wayne percebeu que estava preso sob o desabamento. Suas pernas, que ele não conseguia mover, estava soterradas debaixo de uma montanha de escombros flamejantes. 

E a imagem do bilhete de loteria veio à sua mente. Seu passaporte para um futuro melhor na forma de um quadradinho de cartolina colorida estava sendo consumido pelas mesmas chamas que destruíam suas calças e queimavam sua pele. 

A dor maior que ele sentia, no entanto, não era conseqüência das queimaduras que destruíam sua pela ou dos ossos quebrados em suas pernas. Sua imensa dor provinha da súbita clarividência de que não mais haveria um mundo perfeito à sua espera. 

Não diante de 22 de dezembro de 2012. 



Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

A Décima Temporada é trazida a você por Subsolo.org, com patrocínio do Instituto de Física Avançada Roland. Aprenda tudo sobre física, até como congelar uma cabeça humana.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

Agora voltamos com nossa programação exclusiva.