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05:00 da tarde
Trancada no banheiro, Sari esfregava furiosamente os fundilhos do short branco.
Aquela mancha tinha de sair de qualquer jeito. A mãe ficaria ensandecida se
descobrisse que ela havia sujado seu short novo.
Mas e se Sari contasse à mãe a verdade? E se dissesse que aquele sangue que
manchara a roupa saíra e continuava saindo de dentro dela? E se contasse à mãe
que estava sangrando?
Não! Sua mãe ficaria ainda mais zangada se imaginasse que Sari havia se
ferido. Ou tremendamente preocupada, o que era pior, e certamente a levaria ao médico
para tomar injeções. E a menina detestava tomar injeções. Sari preferia
sangrar até a morte que tomar uma daquelas injeções enormes e dolorosas que
tanto gostava de aplicar o dr. Conrad.
Talvez fosse melhor mesmo sangrar até morrer. Só assim nunca mais teria de
passar por humilhações como as que havia sofrido naquela tarde.
Tudo parecera tão certo, tão perfeito quando a tarde começara e William a
convidara para ir ao riacho... Tão perfeito que até mesmo sua mãe,
contrariando o costume, não criara nenhum empecilho para que a menina saísse.
No riacho, estavam diversas crianças da escola. Alan, Lisa, Bobby, Sally,
Angela, Mark, todos, sem exceção, comandados por William, haviam tratado Sari
como uma deles. Brincaram, nadaram, falaram bobagens. Tudo perfeito. Até o fatídico
momento em que o inferno começara.
Estavam todos sentados em círculo, jogando um jogo de memória, onde cada
participante devia repetir toda a estória contada por seus antecessores e
acrescentar alguma coisa ao final. Sari era muito boa em jogos de memória e em
inventar estórias e estava se saindo muito bem. Cada acréscimo seu à estória
toda arrancava uma rodada de palmas e gargalhadas dos coleguinhas.
Ela seria a próxima a jogar e estava totalmente concentrada no que Mark
inventava por seu turno. Foi nesse instante que sentiu uma pontada no baixo
ventre. Não era exatamente uma dor, era mais como se alguém apertasse sua
barriga com muita força. Talvez fosse algo que houvesse comido...
E, então, era sua vez. Sari repetia toda a longa ladainha e se preparava para
acrescentar um final engraçado, quando sentiu uma coisa estranha. Algo quente
parecia estar escorrendo por entre suas pernas.
A garota quase não conseguiu terminar de falar, tamanho o desconforto. Não era
possível que estivesse fazendo xixi nas calças, como um bebezinho!
- O último a pular na água é mulher do padre!
Aquela sensação desagradável continuava a incomodá-la, quando Alan saiu
correndo em direção ao riacho. Os outros o seguiram. Sari, no entanto, não
queria se levantar.
- Venha, Sari! A água está uma delícia. - convidou William.
A menina balançou a cabeça negativamente e esboçou um sorriso sem graça. Ela
definitivamente não queria se levantar. Algo, no fundo de seu coração, lhe
dizia que era melhor ficar exatamente onde estava. E foi o que ela fez,
ignorando os apelos das outras garotas.
Sari não percebeu quando Alan e Bobby cochicharam um com o outro. Tampouco
reparou quando saíram da água e caminharam sorrateiros até estarem ao seu
lado. Ela somente os viu quando os dois garotos a ergueram pelos braços da
pedra onde estava sentada e a largaram de pé em meio às outras crianças que
também haviam saído da água.
- Ei! Olhem as calças de Sari! Sari fez porcaria nas calças! - gritou Alan,
apontando para a grande mancha avermelhada que tingia o short branco da menina.
Ela, assustada, imediatamente levou as mãos aos fundilhos e elas ficaram sujas
de vermelho.
- Sari fez porcaria nas calças! Sari fez porcaria nas calças! - repetiam com
galhofa Alan, Bobby e Mark, às gargalhadas.
A garota mordia os lábios para conter o choro, mas, ainda assim, as lágrimas
logo explodiram de seus olhos.
Nas imagens turvas pelo pranto, Sari notou que William se aproximava dela com um
sorriso carinhoso. Seus lábios se moviam em palavras incompreensíveis para a
garota. Tudo o que ela sabia, naquele exato instante, era que precisava sair
dali. Não queria que eles a vissem chorando. Não queria que William a visse
chorando.
Saiu em disparada pelo caminho de volta para casa. O pranto agora corria livre
por seu rosto, tentando afogar a vergonha que sentia.
Nunca mais queria ver ou ser vista por aquelas crianças. Precisava convencer o
pai que era hora de mudarem de cidade outra vez. Precisava sair dali.
Sari corria e chorava, sem se importar com o mundo à sua volta.
Entrou em casa como um raio e trancou-se no banheiro, onde ainda estava, quando
sua mãe começou a bater na porta.
- Sari, minha filha! Você está bem?
Ela não respondeu, não queria responder. Se o fizesse, a mãe notaria, pelo
tom de sua voz, que estava chorando. E Sari não queria que a mãe perguntasse o
porquê.
- Sari? Sari? - a mãe soava preocupada.
Então, a menina ouviu o ruído da chave sendo girada na fechadura. O pânico a
dominou. Pôs-se a esfregar ainda mais vigorosamente a mancha nas calças e
respirou fundo, à espera do fim.
08:45 da noite
- Vinte e seis! - anunciou a voz da loura bonita no vestido colante.
Sem despregar os olhos da TV, Wayne mal acreditava no que estava acontecendo.
De manhã, no caminho para o quartel, ele havia parado para tomar um café. Por
alguma razão, enquanto procurava nos bolsos uma moeda para pagar o lanche, seus
olhos foram atraídos pelo colorido dos bilhetes da loteria local. Ele não
costumava comprar bilhetes de loteria. Wayne não acreditava em sorte. Mas a
fascinação por aqueles quadradinhos de cartolina multicor fora tão grande que
ele não resistira em adquirir um.
E agora, diante dele, na TV, apenas uma das bolinhas que subiam e desciam dentro
do globo de plástico o separava do prêmio máximo.
Ele esquecera a raiva e a frustração por não encontrar um colega que o
substituísse, esquecia o cansaço do segundo turno consecutivo. Aquelas
bolinhas brancas, subindo e descendo ao sabor do jato de ar no interior do globo
transparente, eram tudo o que importava no mundo. Ele as observava fascinado, os
dedos apertando com força o bilhete de cartolina, como se não quisessem deixar
escapar o sonho.
Então, um jato de ar mais forte isolou uma das bolinhas em um compartimento no
topo do globo. A loura do vestido decotado sorriu um sorriso de mil dentes
perfeitos, enquanto tomava a bolinha e a examinava com ar compenetrado, numa
lentidão irritante.
Num punhado de segundos que pareceram uma eternidade, pensamentos antagônicos
duelaram na mente de Wayne.
Num momento, aquela bolinha trazia seu número. Ele se imaginava em seu barco,
nem grande, nem pequeno, simplesmente confortável, singrando as águas cor de
turmalina do Golfo do México, sob o sol tépido. O vento nos cabelos, o gosto
salgado do ar marinho em sua boca.
No instante seguinte, não era mais seu número e ele duvidava da sorte, da
vida, do mundo. Duvidava de Deus, que parecia tê-lo esquecido, mal deixara as
fraldas.
- Setenta e quatro! - interrompeu a voz melosa da loura na TV.
Wayne apertou tão forte o bilhete que amassou a cartolina colorida. Setenta e
quatro, seu número! Ele havia ganho! Ganhara a loteria! Um milhão de dólares!
Mais do que jamais imaginara ter! Todos os seus desejos realizados e mais alguns
que ainda viesse a inventar.
O sonho de uma vida perfeita, porém, teria que ficar para depois. A sirene
estridente do quartel anunciava uma emergência para os bombeiros.
Wayne mal teve tempo de enfiar o bilhete premiado fundo no bolso e correr para o
caminhão. Mas ele não se importava.
Apenas mais um atendimento e o sonho estava prestes a se realizar.
09:00 da noite
A lua já ia alta no céu. A brisa continuava quente, embora um pouco mais
fresca que durante o dia.
Recostado na varanda de sua casa, J.J. retorcia as mãos nos bolsos. Aquela
sensação de opressão que o perseguira desde que acordara, permanecia. Forte a
ponto de fazer voltar a maldita vontade de fumar.
J.J. fechou os olhos e pode sentir o gosto acre da nicotina em sua boca, a sensação
da fumaça preenchendo os pulmões. Ele sempre gostara de contemplar o brilho
rubro da brasa do cigarro, destacando-se contra a escuridão da noite. Ato
falho, tateou os bolsos em busca de um maço.
O que estava fazendo? Malditas costeletas!
Olhou em volta, à procura de qualquer coisa fora do lugar, algo que pudesse
distrair seu pensamento da vontade de fumar. As cadeiras brancas estavam
simetricamente dispostas. Os vasos de violetas, apoiados no parapeito em
perfeita harmonia. Nenhum grão de poeira no chão feria a arrumação perfeita
da varanda.
No jardim, em frente à casa, a grama verde estava perfeitamente aparada e as
roseiras plantadas em canteiros simétricos, podadas e preparadas para o
inverno. No azul profundo do céu noturno, a grande esfera cor de prata da lua
cheia destacava-se dentre as inúmeras estrelas brilhantes.
O mundo poderia ser perfeito para J.J. não fosse por aquela sensação desagradável
que tinha na boca do estômago e que lhe trazia de volta um crescente desejo por
um cigarro.
- Maldição! - ele murmurou baixinho.
Enfiando a mão num dos bolsos, ele resgatou um cigarro, o último do último maço
que ele fumara antes de abandonar o vício. No passado, ele o guardara ali como
testemunho silencioso de sua vitória contra o vício. Agora, aquele pequeno
cilindro de papel e tabaco serviria como baluarte de sua derrocada.
A outra mão, atenta à movimentação da primeira, já trazia aceso o fósforo
que consumaria o ato. Quando a chama tremeluzente tocou a extremidade do
cigarro, um forte estrondo ecoou no silêncio da noite. No horizonte, uma enorme
bola de fogo ergueu-se aos céus.
J.J., soltando uma longa baforada da fumaça mal cheirosa de seu Morley,
compreendeu, naquele instante, que seu mundo nunca mais seria perfeito.
Não diante de 22 de dezembro de 2012.
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Wayne afagava distraído o bolso da calça onde estava guardado seu passaporte
para um mundo perfeito. O pensamento perdido nas águas quentes e cristalinas em
um ponto qualquer do mar do Caribe não lhe permitia reparar na total desordem
que se espalhava pelo mundo ao seu redor.
Por todo lado, havia fogo devorando a cidade. Uma dezena de incêndios e explosões
havia ocorrido quase que simultaneamente em diversos pontos da cidade e
arredores. As sirenes dos carros de bombeiros enchiam o silêncio com seus
gritos ensurdecedores, enquanto os caminhões vermelhos rasgavam a noite à toda
velocidade.
Alheio a tudo, Wayne Garcia sonhava, como nunca se permitira desde os tempos de
criança. Sonhava com dias melhores, com sua própria versão de um mundo
perfeito. A esperança coloria seus sonhos com cores vívidas e luminosas, tão
diferentes da sombria realidade de sua vida.
- Garcia, vamos!
O grito do companheiro o trouxe de volta de seus devaneios para a crueza de uma
situação de emergência em andamento.
Parte da casa branca, em Church Falls, ardia. No gramado descuidado, diante
dela, um casal observava as chamas, aparentemente atônito, alheio à movimentação
dos bombeiros. O homem de cabelos brancos, magro porém forte, era amparado pela
mulher morena que o abraçava. Parecia totalmente abatido pela visão do fogo
que consumia a casa. A mulher afagava-lhe carinhosamente os cabelos e trazia no
olhar um quê de tristeza indefinível e irremediável.
Era tão evidente a desesperança de ambos que Wayne quase se sentia culpado por
sonhar com um futuro melhor e foi invadido pela bizarra idéia de que o mundo
havia saído de seus eixos, de que algo, naquele momento todo, estava muito,
muito errado.
Não houve tempo, no entanto, para entregar-se à filosofia. Wayne ouviu o grito
apenas uma fração de segundo depois que reparou no menino. Oito ou nove anos,
nas mãos uma bicicleta vermelha, ele surgiu tão próximo à casa que o fogo
que a devorava emprestava reflexos avermelhados aos seus cabelos louros.
- Papai! - gritou, quando parte da estrutura em chamas começou a desabar sobre
ele.
O homem de cabelos brancos, subitamente recuperado do torpor que o paralisava,
correu em direção ao menino. Wayne, porém, foi mais rápido e chegou ao local
bem a tempo de receber sobre si um enorme pedaço da parede em chamas.
- Onde ele está? - indagou a voz rouca do homem de cabelos brancos já de pé
ao lado de Wayne.
Em meio ao entulho ardente, ele procurou pelo menino. Mas ele havia
desaparecido. Era como se houvesse sumido no ar! Ou se nunca estivesse estado
ali...
- Socorro! Oficial caído. - gritou a mulher morena, que agora o amparava.
Foi então que Wayne percebeu que estava preso sob o desabamento. Suas pernas,
que ele não conseguia mover, estava soterradas debaixo de uma montanha de
escombros flamejantes.
E a imagem do bilhete de loteria veio à sua mente. Seu passaporte para um
futuro melhor na forma de um quadradinho de cartolina colorida estava sendo
consumido pelas mesmas chamas que destruíam suas calças e queimavam sua pele.
A dor maior que ele sentia, no entanto, não era conseqüência das queimaduras
que destruíam sua pela ou dos ossos quebrados em suas pernas. Sua imensa dor
provinha da súbita clarividência de que não mais haveria um mundo perfeito à
sua espera.
Não diante de 22 de dezembro de 2012.
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