Perfect Strangers

parte 4

Apenas a monotonia do mantra rompia o silêncio da noite. As velas, o incenso, o sorriso pacificador do Buda na mesinha. Nada parecia capaz de acalmar o coração inquieto de Sari. 

Agora ela sabia a verdade. Sua mãe lhe explicara a razão do sangramento. Sari não estava ferida ou doente. Também não sangraria até morrer. Apenas havia dado o primeiro passo no longo caminho para se tornar uma mulher. 

A mãe contara estórias bonitas sobre esse evento e as transformações que ele causaria. Comparara a menarca ao pálido raio de sol que faria desabrochar em Sari a flor-mulher. Mas nada, nem belas parábolas, nem palavras comoventes, tiraria da garota a sensação de estar suja, podre, estragada para todo o sempre. Nada seria capaz de convencê-la de que, depois dos acontecimentos daquela tarde, ela um dia teria outra chance de ser aceita pelos outros. Naquele mundo material, não havia esperanças para ela. 

Nem no outro, o espiritual, ela estava convencida. Para alcançar o nirvana é preciso ser limpo, ser puro. E como poderia ser ela limpa e pura, sangrando daquele jeito? 

Em seus ouvidos, o monossilábico mantra que a mãe entoava ganhou outras palavras. 

- Sari fez porcaria nas calças! Sari fez porcaria nas calças!- zombava Alan, sem parar. 

A face gorducha do Buda na mesinha tomou as formas rechonchudas do rosto zombeteiro de Bobby, diante de seus olhinhos turvados pelas lágrimas. 

- Sari fez porcaria nas calças! Sari fez porcaria nas calças!- continuava o mantra, à medida em que a luz dourada do nirvana ficava mais e mais longe da menina. 

Angustiada, ela desviou o olhar da imagem e de suas zombarias. Os olhos vagaram a esmo pela penumbra da sala até serem atraídos pela chama das velas. Nelas a menina pareceu ver o sorriso de William, seus lábios se movendo em palavras que, ainda que ininteligíveis, eram estranhamente reconfortantes. 

William era um bom garoto. Seria uma pena nunca mais voltar a vê-lo. Talvez não fosse assim tão boa idéia pedir ao pai para mudarem de cidade. 

Ele ainda sorria gentilmente, na chama das velas, quando um estrondo encheu o ar e interrompendo a cantilena do mantra. Tão forte foi que fez tremer os vidros das janelas. 

Toda a família levantou-se e correu para a janela. Lá fora, na distância, um clarão dourado erguia-se no negror da noite. Não era o nirvana com que Sari tanto sonhava, mas fogo que consumia a propriedade de algum vizinho. 

Contemplando aquela luz dourada e maligna, Sari percebeu que talvez nunca encontrasse seu nirvana. O sonho infantil de perfeição que alimentara até então não mais fazia sentido. 

Não diante de 22 de dezembro de 2012.

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