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Apenas a monotonia do mantra
rompia o silêncio da noite. As velas, o incenso, o sorriso pacificador do Buda
na mesinha. Nada parecia capaz de acalmar o coração inquieto de Sari.
Agora ela sabia a verdade. Sua mãe lhe explicara a razão do sangramento. Sari
não estava ferida ou doente. Também não sangraria até morrer. Apenas havia
dado o primeiro passo no longo caminho para se tornar uma mulher.
A mãe contara estórias bonitas sobre esse evento e as transformações que ele
causaria. Comparara a menarca ao pálido raio de sol que faria desabrochar em
Sari a flor-mulher. Mas nada, nem belas parábolas, nem palavras comoventes,
tiraria da garota a sensação de estar suja, podre, estragada para todo o
sempre. Nada seria capaz de convencê-la de que, depois dos acontecimentos
daquela tarde, ela um dia teria outra chance de ser aceita pelos outros. Naquele
mundo material, não havia esperanças para ela.
Nem no outro, o espiritual, ela estava convencida. Para alcançar o nirvana é
preciso ser limpo, ser puro. E como poderia ser ela limpa e pura, sangrando
daquele jeito?
Em seus ouvidos, o monossilábico mantra que a mãe entoava ganhou outras
palavras.
- Sari fez porcaria nas calças! Sari fez porcaria nas calças!- zombava Alan,
sem parar.
A face gorducha do Buda na mesinha tomou as formas rechonchudas do rosto
zombeteiro de Bobby, diante de seus olhinhos turvados pelas lágrimas.
- Sari fez porcaria nas calças! Sari fez porcaria nas calças!- continuava o
mantra, à medida em que a luz dourada do nirvana ficava mais e mais longe da
menina.
Angustiada, ela desviou o olhar da imagem e de suas zombarias. Os olhos vagaram
a esmo pela penumbra da sala até serem atraídos pela chama das velas. Nelas a
menina pareceu ver o sorriso de William, seus lábios se movendo em palavras
que, ainda que ininteligíveis, eram estranhamente reconfortantes.
William era um bom garoto. Seria uma pena nunca mais voltar a vê-lo. Talvez não
fosse assim tão boa idéia pedir ao pai para mudarem de cidade.
Ele ainda sorria gentilmente, na chama das velas, quando um estrondo encheu o ar
e interrompendo a cantilena do mantra. Tão forte foi que fez tremer os vidros
das janelas.
Toda a família levantou-se e correu para a janela. Lá fora, na distância, um
clarão dourado erguia-se no negror da noite. Não era o nirvana com que Sari
tanto sonhava, mas fogo que consumia a propriedade de algum vizinho.
Contemplando aquela luz dourada e maligna, Sari percebeu que talvez nunca
encontrasse seu nirvana. O sonho infantil de perfeição que alimentara até então
não mais fazia sentido.
Não diante de 22 de dezembro de 2012.
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odiamos eles!
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