Perfect World

parte 4

9:00 horas da noite

Scully entrou apressadamente na cabana. Estava tensa e aquele barulho a havia deixado nervosa. Mulder estava lendo um livro, ou talvez somente folheando, tentando se distrair.

Assim que ela entrou, ele tirou os olhos do livro e acompanhou os movimentos dela.

_ Escutei um barulho lá fora.

Ela fez o comentário, tentando explicar sua pressa em entrar.

_ Eu sinto muito, Scully.

_ Era você lá fora?

_ Não, não é isso. Sinto muito por ter dito aquilo.

_ Você tem o direito de dizer ou pensar aquilo. É seu filho, afinal.

_ Eu não tenho o direito de pensar isso, e não penso. Eu não estava lá quando você precisou de mim, quando sentiu que a única saída para o bebê seria se separar dele.

_ Ótimo, agora a culpa é sua. Como você consegue ser sempre o culpado do que acontece, Mulder?

_ Certo, então me diga, naquele período que eu deixei vocês dois, nem por um momento você me culpou?

_ Não, eu juro. Eu queria que você estivesse lá, ao meu lado, mas entendia seus motivos.

_ Então você pode saber como eu entendi o que você fez. Nós dois tivemos que tomar decisões difíceis, e não podemos voltar atrás, Scully.

_ O que quer dizer? Que eu jamais vou poder ver meu filho de novo?

_ Não. Eu não estou falando do futuro. Estou falando do passado. Você parece viver lá.

_ E você, Mulder, onde você vive?

_ Do seu lado.

_ Nós não estamos mais um ao lado do outro, você sabe disso.

_ Eu sei, mas a gente pode tentar mudar isso, não é?

_ Mulder, você escolheu um péssimo dia para uma reconciliação.

_ Não é um péssimo dia. É o único dia. Depois tudo vai ser diferente.

_ Hoje já está acabando, Mulder. Se o futuro realmente for chegar, é melhor que se apresse. E, enquanto ele não chega, eu vou ver se consigo dormir um pouco.

Mulder sabia que ela estava blefando. Ela, com certeza, se deitaria na cama, fecharia os olhos e esperaria por algum sinal.

Ele também não tinha sono, mas a acompanhou, mesmo sem saber se ela o queria ou não ao seu lado.

Se deitou ao lado dela e ficou observando seu rosto. A luz forte da lua invadia todo o quarto. Se não fosse por toda aquela tensão, ele poderia afirmar que era a noite mais bonita que eles haviam visto.

Scully percebeu que Mulder a observava. Sem abrir os olhos, sussurrou.

_ Mulder, tenta dormir um pouco.

_ São só nove horas.

_ Amanhã vai ser um longo dia.

_ Então amanhã eu descanso.

Uma longa pausa se seguiu antes que ela falasse novamente.

_ Quando isso aconteceu, Mulder?

_ O que?

_ Isso tudo, nossas brigas, essa separação cada vez maior.

_ Eu não sei. Eu não gosto disso, sabe?

_ Nem eu.

Scully abriu os olhos e fixou o olhar nele. Por alguns instantes ela sentiu como se todos aqueles anos não tivessem jamais se passado. Ele se aproximou e beijou-lhe a testa. E os dois ficaram ali, deitados frente a frente, seus rostos quase se tocando.

E, então, ambos ouviram o barulho. Um enorme estrondo vindo da floresta. Correram até a janela e viram o que não queriam ver.

Viram o futuro, as chamas, a destruição.

Mais perto do que imaginavam, mais aterrorizante do que poderiam jamais admitir. Naquele momento, ainda olhando com terror pela janela, Scully sequer notara que Mulder lhe segurava a mão com força.

Tampouco Mulder se dava conta das lágrimas que escorriam pelo rosto dela.

Aqueles detalhes haviam perdido a importância diante do inevitável, do inimaginável.

Diante de 22 de dezembro de 2012.

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