Título: Subsolo Autora: Claudia Modell Sinopse: Mulder se vê em uma situação de grande risco, mas Scully não sabe disso. Será que ele será salvo em tempo? E-mail: claudia@subsolo.org Homepage: http://subsolo.org Disclaimer: Os personagens dessa história foram criados por Chris Carter, 1013 e Fox Company. Subsolo Por alguns instantes, Mulder ficou tentando se lembrar de como havia ido parar dentro daquele buraco. Quando ele acordou da queda, de fato, havia sido com surpresa que percebera o que havia acontecido. O pânico chegou minutos depois. O poço era apertado, e fundo, muito fundo, a julgar pela ausência total de luz no topo. E estava frio, úmido. Tentou verificar se havia quebrado algum osso na queda, mas ele estava sentindo o corpo todo dolorido. Como mal podia se mover, ficava difícil saber se as dores eram devidas a ferimentos ou somente pelo desconforto. Aos poucos e com bastante cuidado, ele tentou se ajustar melhor no pouco espaço de que dispunha. Com alívio percebeu que o poço tinha fundo e que este estava sob seus pés. Ao menos não tinha mais para onde cair. O problema agora era saber quanto tempo agüentaria lá embaixo. O ar não era dos mais puros e ele não tinha idéia de quanto tempo ainda teria de oxigênio. Além disso, ficar parado muito tempo na mesma posição, no frio e umidade, poderia causar a ele mais do que um simples desconforto. Ele tinha que gritar, chamar ajuda. Mas sabia que seria difícil que alguém ouvisse. Estava muito longe do hotel de beira de estrada no qual ele e Scully se hospedaram, horas antes. E Scully não tinha idéia de que ele havia deixado seu quarto, no meio da noite, por causa de um barulho suspeito que ele ouvira. Como ele pôde ser tão estúpido? Sair daquele jeito, por um local desconhecido para ele, na escuridão, sem avisar ninguém. Scully somente iria notar a falta dele no dia seguinte, lá pelas nove horas da manhã, com certeza. Afinal eles estavam viajando de volta para casa sem pressa de chegar e ela o deixaria dormir bastante. O problema era que esse "dormir bastante" podia ser mais do que ele estava disposto a tolerar. Mulder tentou gritar o mais alto que pôde, afinal era noite funda, e seus gritos seriam ouvidos com facilidade. Claro, se ele não estivesse há vários metros da superfície. Que jeito idiota de morrer. Provavelmente ninguém jamais o encontraria vivo. O dia seguinte chegaria, Scully iria acordá-lo, mas ele não estaria lá. Ela procuraria por ele, por algumas horas, descobriria que o carro ainda estava no estacionamento, que suas roupas não haviam sido levadas, que a porta não havia sido arrombada. Ela então pediria ajuda a Skinner, que mandaria uma equipe para investigar o desaparecimento dele. Bem, isso duraria algumas horas. Ele calculava que tinha caído no poço, aproximadamente, lá pelas duas da manhã. Mulder imaginava que ele seria encontrado pelo menos vinte e quatro horas depois. Era muito tempo lá embaixo. Muito tempo na mesma posição, agüentando frio e umidade. Quanto a sede e fome não era uma preocupação. Ele, sinceramente, não achava que ia viver o suficiente para morrer de fome e sede. Mulder se lembrou de sua arma. Ele tinha ao menos seis balas na arma. Eram seis chances de ser ouvido. O problema era conseguir alcançar a arma, que, pela pressão que sentia, estava mais nas suas costas do que no local onde deveria estar, debaixo de seu braço. Pensando bem, mesmo que estivesse embaixo do braço, ele não poderia se mover de forma a conseguir alcançá-la. Na verdade, ele não podia se mover o suficiente nem ao menos para coçar o nariz, caso quisesse. Ao pensar nisso, foi exatamente essa a vontade que teve. Mais uma tortura a ser adicionada a sua relação. Mulder tentou não pensar muito nisso. Pensaria em outras coisas. Como um outro meio de sair dali sem precisar esperar vinte quatro horas. Talvez se encolhesse as pernas contra a parede do poço ele pudesse escalá- lo e chegar ao topo. Mas ele, sequer, podia mover as pernas, quanto mais fazer todo esse movimento. O celular! Como ele podia ter esquecido do celular? Bastava ligar para sua parceira e ela viria salvá-lo. Brigaria com ele, claro, mas ao menos ele sairia vivo dali. Sua euforia durou pouco ao lembrar-se que seu celular estava carregando, no quarto no qual ele deveria estar dormindo. Mulder, mais uma vez, xingou a si mesmo. Como havia conseguido cometer tantos erros em tão pouco tempo, era um mistério. Claro que já estivera em situações similares, mas pensar que ele morreria por nada. Havia ouvido um barulho, havia seguido o ruído e caído naquele buraco. Provavelmente, o ruído havia sido causado por algum cachorro ou gato. Depois de passar a vida perseguindo alienígenas, lutando contra uma conspiração governamental e escapando de tantos perigos, ele agora estava fadado a morrer dentro de um poço, após ter perseguido um cachorro. Ainda bem que ele não estaria presente para ouvir as piadinhas nos corredores do FBI. A não ser que sobrevivesse, mas caso isso ocorresse ele não se incomodaria com as piadas. Que horas seriam? Talvez o sol já estivesse para surgir e traria um pouco de calor. Era uma esperança um tanto vã, mas ele não tinha nenhuma outra. O sono estava chegando. Tantas noites sem dormir, assistindo a TV, apenas querendo colocar a cabeça no travesseiro e dormir profundamente, e agora que ele precisava ficar acordado não conseguia. Talvez estivesse em choque. Poderia ter batido a cabeça na queda e tinha sofrido uma concussão. Mais um motivo para ficar acordado. Olhou novamente para cima, a escuridão não o deixava ver nem mesmo o céu. E o frio parecia estar aumentando. Sem que percebesse, Mulder começou a relaxar. O sono estava vindo com força. Ele mal conseguia manter os olhos abertos. De repente, não lhe importava tanto ficar acordado. Lentamente ele cedeu ao sono, se deixando levar por braços invisíveis. Seguindo para um lugar escuro mas confortável, de onde ele não queria sair mais. Xx - Mulder? Era a voz de Scully. Ela estava lá, ela o havia salvado. Como o havia encontrado ele não entendia. - Mulder, o que você está fazendo aí dentro? Era uma pergunta bem idiota, ele pensou. Será que ela não via que ele não havia escolhido passar a noite no fundo de um poço? Então ele abriu os olhos e, após se ajustar à luz, viu o rosto de sua parceira, contra o azul do céu. Ela lhe tocou o rosto e em seguida ofereceu ajuda para que ele saísse do poço. Ele não entendia como ela poderia estar tão próxima. Para um homem inteligente ele demorou bastante tempo para perceber o óbvio. O poço não era bem um poço, era somente um buraco, de no máximo dois metros de profundidade. - Scully, eu.... Ele tentou pensar em alguma coisa para dizer. Alguma desculpa sobre o que poderia ter acontecido. Qualquer coisa que tirasse aquele risinho do rosto dela. Mas ele não conseguiu pensar em nada. - Não vai me explicar isso, Mulder? - Um dia eu te explico, talvez. - Prá que tanto mistério? Eu te conheço, Mulder. Você ouviu ou viu algo suspeito, resolveu investigar sem me chamar, como sempre, e acabou se metendo em uma encrenca. - Ok, se você quiser achar que foi isso, tudo bem. - Foi isso, não foi? - Não. - Foi! Ela estava rindo abertamente. Mesmo que fosse dele que ela estivesse rindo, ele não se importava tanto. Era bom ouvir sua risada, para variar. Bem, pelo menos para isso havia servido passar a noite em um poço raso. Eles retornaram ao hotel, e já não era somente Scully que ria. Fim